Feito índios fascinados com miçangas e espelhos, nós caímos no fascínio do “consumidor feliz”. Caímos, tristemente, no canto da sereia dos produtos brilhantes e propagandas chamativas que aparecem na nossa frente todos os dias. Produtos cada vez mais tecnológicos e, por “óbvio”, cada vez mais “indispensáveis”…
Produtos esses que, em uma análise mais aprofundada, geram uma verdadeira segregação social entre os cidadãos adquirentes e os não-adquirentes. E, ao longo prazo, a exclusão dos que não se subvertem à tal sórdida lógica-consumerista. Abrimos mão, portanto, de relações humanas em virtude de produtos e serviços.
Somos, no fundo, vítimas de um sistema muito bem trabalhado, pensado e elaborado, que nos faz almejar coisas que nunca imaginámos precisar. Somos levados a crer que o ser humano se confunde com seus próprios bens materiais. Você é o carro que você dirige, a casa onde você mora, a escola que seus filhos estudam, o clube que você frequenta…
Vendedores com cursos de Programação Neurolinguística e com técnicas de venda que desvendaram o comportamento humano (sempre com um nome bonitinho para esconder a palavra: “manipulação”), sequestraram nossos cérebros e, sem perceber, abrimos mão da nossa própria liberdade e livre-consciência para jogar, mecanicamente, um jogo que nos foi imposto. Sentimo-nos mal, cotidianamente, por não conseguirmos comprar o que queremos (o que “merecemos”).
Sequestram os cérebros de nossas crianças com programas que reduzem a autoridade parental, propagandas criminosas e formadores de opinião ignóbeis dignos de uma internação compulsória. E nós aceitamos tudo isso em troca de “comodidade”, “paz”, “aceitação social” e etc. Furtam-nos a nossa essência humana e o que nos é mais caro em busca de lucros fáceis e rápidos.
O simples ato de comprar uma fralda para um filho torna-se, sem que nós percebamos, um jogo de consciência de nós contra nós mesmos. Ilustro: “- Olha, essa fralda está em promoção. Vou levar! Ops, essa aqui é ‘premium’, um pouco mais cara, mas meu filho merece o melhor… Pensando bem, vou levar a ‘premium gold’ mesmo, não vou economizar com meu filho… não sou um pai ruim e mesquinho”.
Não ponho em cheque, com o exemplo dado, o fato de que um pai não pode querer o melhor para seu filho ou de que não existam fraldas melhores do que as outras. Destaco meramente a questão do jogo de consciência de que os pais são levados, de forma inconsciente, a ter. “Se eu der a fralda mais barata para o meu filho, eu não sou um bom pai”. O conceito de “adquirir algo” se confunde com o conceito de “merecimento” sem que nós percebamos, o que faz com que nós deixemos algumas notas a mais em cada loja. “Meu filho merece o melhor”.
Não milito, ainda, já refutando de antemão os apressados, pelo fim do sistema capitalista. Não se trata disso. Militar para que algo substitua o sistema atual seria impor limitações a liberdade própria e alheia. Não se apressem nas conclusões. Porém, negar o impacto negativo de um sistema que subverte toda a lógica ao proveito econômico, deixando de lado questões morais e éticas, também é ingenuidade demais, meus queridos amigos.
Digo, meramente, que precisamos tomar ciência deste jogo de mercado. Precisamos restaurar o que nos é mais humano. A consagração da nossa humanidade dá-se nos momentos subjetivos, não nos bens materiais.
Os adultos da década de 60 sabiam muito bem disso, por isso as empresas voltaram suas propagandas para os jovens para que conseguissem criar uma cultura de consumidores compulsivos. Hoje é mais fácil descartar um produto e comprar um novo do que buscar repará-lo. Acho que perdemos essa guerra, não é mesmo? Mas nunca é tarde demais… Pelo menos tento manter minha fé.
Lembremo-nos do que nos é essencial, do que nos é verdadeiramente necessário.
Você pode, sem culpa, comprar seu relógio com GPS/ Internet/ Interação com o celular e tudo mais, só não confunda isso com felicidade, só não confunda seu Eu com seus Bens. Não sucumba a lógica do “consumidor feliz”. Bens trazem conformo, alegria, estimulam nossa dopamina, e nos dão um senso de “merecimento”, sim, com certeza, mas por quanto tempo? Quando o tédio retornar e você flertar novamente com o seu vazio existencial, não espere achar resposta para tal profunda questão no próximo modelo do seu celular, no próximo aplicativo, no próximo produto ou serviço “indispensável”…

Autor: Estevan Facure Giaretta.

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Estevan Facure

Author: Estevan Facure

Advogado formado pela Universidade Federal de Uberlândia, especialista em Direito de Família.

Post escrito por Estevan Facure em 13 de novembro de 2019

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