Essa é a história de Luana, Cléber e Maria(s).

Luana

Luana veio de uma família boa, estruturada, com condição financeira suficiente para colocá-la naquele “um por cento” da população rica que nós tanto ouvimos falar.
Sempre fora bastante estudiosa e tirava notas invejáveis nas escolas particulares mais exigentes da cidade. Quase conseguia preencher de orgulho o coração vazio de seu pai.
Aos 17 anos, passou em Direito na Faculdade Federal de sua cidade. Claro que ela tinha condições de pagar uma escola particular (seus pais, na verdade), mas o vestibular muitas vezes desempenha essa função excêntrica de perpetuar a desigualdade social. Quem pode culpá-la? Nós não.
No meio do quinto ano de Direito, já havia passado no Exame da OAB.
Aos 22, pegou seu diploma de graduação.
Habilitada para advogar, optou por “focar nos estudos” enquanto assinava as petições do seu tio advogado para preencher o requisito legal de “atividade jurídica” para poder realizar seu sonho de ser juíza. Que requisito bobo, não é mesmo? Um absurdo estar na Constituição.
Pela ânsia do poder e status, dedicava 12 horas do seu dia aos estudos. Sempre com os melhores livros, os melhores cursinhos preparatórios e os melhores professores.
Balada? Nem pensar! Alias, só uma vez no mês, para descontrair um pouquinho. Quase nem bebia.
Jantares com a família? Não há tempo! Se bem que, “há males que vêm para o bem”, pois Luana nunca gostara de “fazer sala” para seu tio chato.
Sustentada pelos pais e dentro da sua bolha existencial, Luana conseguira ser aprovada no concurso de magistratura aos 26 anos.
– “Que maravilha, Luana!”.
– “Que orgulho, garota!”.
– “Já posso chamar de Excelência?”.
Hoje o Outback é por minha conta.

Cléber

Nascido de uma família não-tão-bem estruturada, Cléber fazia parte daqueles dez por cento da população que vive em condições de miserabilidade. Aqueles dez por cento que não aparecem no jornal nem por “reza braba”.
Sua mãe era artesã e seus proventos sequer quitavam os altos juros dos bancos que humanitariamente lhe emprestaram dinheiro. Sua mãe “era”, pois hoje só é lembrada por “de cujus” no processo de inventário que divide sua casinha com seus cinco filhos. Casinha esta que já está na família há quatro gerações.
O pai de Cléber era o seu avô materno.
– “Mas e o pai de verdade?”
Como eu disse, o pai de Cléber era o seu avô. O ser humano que forneceu o material genético para a sua concepção desapareceu subitamente, tão logo Cléber anunciara seus primeiros sinais de vida.
Cléber é peão e sempre ganhou a mínima remuneração legalmente permitida, o que equivale hoje a 937 reais, graças a alguma legislação federal que lhe garante um tal de “salário mínimo”.
Escola? Piada de mal gosto. Frequentou até os 13 anos alguma das escolas públicas do município, mas nunca estudou. De lá, só se lembra do seu primeiro beijo e do primeiro cigarro de maconha.

Maria

Maria, apesar de pobre, é uma felizarda, pois sempre teve um pai presente.
Claro que a presença de seu pai nem sempre fora motivo de júbilo, pois frequentemente ficava bêbado e espancava sua mãe, mas vocês sabem, só quando ela “procurava muito”.
Melhor um pai do que um não-pai, não é mesmo?
O pai de Maria, sempre infiel, não aceitava a infidelidade recíproca, motivo pelo qual espancou sua mãe pela última vez em 1998. Hoje sequer a mãe de Maria é lembrada como “de cujus”, pois não deixou bens a inventariar.
Pensando bem, meus amigos, felizarda teria sido Maria se tivesse sido abandonada na rua ao nascer. Provavelmente algum político à procura de votos usaria seu caso para promover alguma nova campanha de adoção.
Maria aprendeu, desde cedo, seu lugar na cozinha, distante dos livros e das brincadeiras “de meninos”. Sempre fora assediada por seus primos mais velhos (e mais novos), mas vocês sabem, é só “brincadeira de criança”.
Cansei de falar sobre Maria, história de pobre não dá ibope. Apenas saibam que Maria e Cléber se casaram e o “até que a morte os separe” durou apenas três anos, mas ninguém morreu, só o respeito entre o casal.
O casamento se deu por pressão social, afinal, gravidez não é coisa de namorados.
Da Maria, nasceu nossa segunda Maria, que fazia aniversário quase junto com a “comemoração” do casamento dos pais.
Com três anos de idade, levou a sua primeira “coça”. Coçou tanto que parou no IML com o pai bêbado ameaçando a mãe.
“- Ela caiu na rua. Estava aprendendo a usar patins.”

Luana, Cléber e Maria(s)

A história parou no judiciário, nas mãos da recém-juíza Luana, na forma de um divórcio litigioso cumulada com alimentos e guarda.
Quando a ação chegou às mãos da Excelentíssima Senhora Doutora Luana, esta foi rápida ao fixar os “alimentos provisórios” no valor de um salario mínimo contra o pobre Cléber, ainda que sem provas da sua real condição financeira, pois viu imagens das nossas duas Marias ensanguentadas. Nada melhor do que ilustrações-jurídicas para limpar a consciência do juiz na hora da condenação.
Cléber, coitado, não conseguiu pagar os alimentos e foi preso.
Quando retornou da prisão, foi demitido.
No dia da última audiência do processo, aquela na frente do juiz, aquela que fixa os alimentos “definitivos”, a juíza se solidarizou com o pranto de Cléber e reduziu os alimentos para 30% de um salário mínimo. Oportunamente, chamou nossa primeira Maria de vagabunda (não nessas palavras, claro), orientando-a a arrumar um emprego e a “parar de fazer filhos”, já que não tinha condições para sustentá-los.
Maria, coitada, além da Mariazinha agora tinha Pedro, que sequer tinha o nome de um genitor entabulado em sua certidão de nascimento.
Luana, nascida em berço de ouro e sustentada pelos pais até ontem, mandou Cléber arrumar um emprego melhor e Maria “parar de fazer filhos”.
Luana, que tinha entendido como funcionava o jogo da vida, decidiu após a audiência que só teria filhos após conhecer todos os Países da Europa. Aliviada, foi para casa assistir o episódio final de sua série favorita na Netflix.
Ninguém perguntou, mas:
Luana ficou grávida aos 35 e, claro, seus gêmeos eram sustentados pela reserva infindável de recursos do Estado, graças aos gloriosos auxílios creche e moradia, que cumprem o papel de garantir regalias aos que não precisam.
Ainda hoje, as histórias dos personagens dessa história se cruzam, pois vira-e-mexe a Excelentíssima Luana precisa mandar citar Cléber para pagar a pensão alimentícia atrasada, sob pena de lhe ser decretada pela quinta vez a prisão.


Curta nossa página do Facebook (clicando aqui).

Estevan Facure

Author: Estevan Facure

Advogado formado pela Universidade Federal de Uberlândia, especialista em Direito de Família.

Post escrito por Estevan Facure em 23 de outubro de 2017

Post Anterior: << --- >> Próximo Post:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *